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Retrato em Branco e Negro

A obra examina a forma como os jornais paulistas representaram os escravizados, os libertos e os cidadãos brancos durante um período de intensas mudanças políticas e econômicas, lançando luz sobre os desafios da transição do trabalho escravo para o trabalho livre.

O livro se insere dentro do campo dos estudos sobre a escravidão e o pós-abolição, trazendo uma abordagem inovadora ao focar no discurso da imprensa e em suas estratégias de representação da sociedade em transformação.

Schwarcz parte da premissa de que os jornais desempenharam um papel fundamental na construção das hierarquias raciais, reforçando estereótipos e naturalizando desigualdades. Ao analisar as páginas desses periódicos, a autora revela como a sociedade paulista lidava com a presença dos ex-escravizados na vida pública e como as elites buscaram estabelecer limites à sua participação na cidadania.

A obra está estruturada em torno de uma investigação detalhada dos jornais da época, que servem como fonte primária para entender as narrativas construídas sobre a transição do regime escravista para o trabalho assalariado.

Schwarcz evidencia que a imprensa, ao mesmo tempo em que comemorava o fim da escravidão como um avanço civilizatório, também alimentava discursos que associavam os libertos à marginalidade e ao atraso. Esse processo contribuiu para a exclusão social e política dos ex-escravizados, demonstrando que a abolição não significou, necessariamente, a incorporação plena dos negros na sociedade como cidadãos de direitos.

Um dos pontos centrais da análise de Schwarcz é a forma como a branquitude se consolidou como um ideal social e político, em contraste com a representação dos negros. A imprensa da época, de acordo com a autora, reforçava a ideia de que a modernização e o progresso estavam ligados à população branca e aos imigrantes europeus, enquanto os negros eram frequentemente retratados como um problema social. Assim, os jornais não apenas refletiam as tensões da época, mas também contribuíam para a manutenção das desigualdades raciais.

Outro aspecto relevante do livro é a maneira como Schwarcz articula sua análise histórica com questões de linguagem e discurso. Ao examinar os textos jornalísticos, ela demonstra como determinadas palavras e construções narrativas ajudavam a consolidar uma visão racializada da sociedade. Esse método de análise, inspirado na antropologia e na história cultural, confere à obra um caráter interdisciplinar, enriquecendo sua interpretação sobre o período estudado.

Além de explorar a representação dos negros, Retrato em Branco e Negro também discute o impacto das transformações econômicas na sociedade paulista. A substituição da mão de obra escrava pela força de trabalho livre trouxe desafios tanto para os ex-escravizados quanto para os novos trabalhadores imigrantes.

Schwarcz evidencia como os jornais se posicionavam diante dessas mudanças, frequentemente defendendo políticas de incentivo à imigração europeia e reforçando uma ideia de progresso atrelada ao branqueamento da população.

O livro tem grande relevância dentro dos estudos sobre o racismo estrutural no Brasil, pois mostra como a exclusão dos negros não foi apenas um resultado da escravidão, mas também um processo ativo de marginalização que continuou após a abolição. Ao destacar o papel da imprensa nesse contexto, Schwarcz ajuda a compreender como os meios de comunicação influenciam a construção das hierarquias sociais e a naturalização das desigualdades.

No campo historiográfico, a obra dialoga com importantes estudos sobre a escravidão e o pós-abolição, como os trabalhos de Emilia Viotti da Costa e Sidney Chalhoub. No entanto, Schwarcz se diferencia ao enfatizar a análise das representações midiáticas, oferecendo um olhar renovado sobre a transição para o trabalho livre e sobre as estratégias discursivas que moldaram o imaginário racial no Brasil.

Em termos de impacto, Retrato em Branco e Negro segue sendo uma referência essencial para pesquisadores das áreas de história, antropologia e comunicação, bem como para todos aqueles interessados em compreender as raízes das desigualdades raciais no Brasil.

Sobre o Autor de “Retrato em Branco e Negro”

LILIA MORITZ SCHWARCZ é professora sênior do departamento de antropologia da USP e visiting professor na Universidade de Princeton (EUA). Entre outros livros, é autora de O espetáculo das raças (1993), As barbas do imperador (1998, prêmio Jabuti de Livro do Ano), Brasil: uma biografia (2015, com Heloisa Murgel Starling), Lima Barreto – Triste visionário (2017, prêmio APCA de Biografia) e O sequestro da Independência (2022, com Carlos Lima Junior e Lúcia Klück Stumpf). Organizou também os volumes Dicionário da escravidão e liberdade (2018, com Flávio dos Santos Gomes), Dicionário da república (2019, com Heloisa Murgel Starling) e Enciclopédia negra (2021, com Flávio dos Santos Gomes e Jaime Lauriano, prêmio Jabuti de Ciências Humanas). Foi eleita imortal na Academia Brasileira de Letras em 2024.

 

  • Editora ‏ : ‎ Companhia das Letras; 1ª edição (10 abril 2017)
  • Idioma ‏ : ‎ Português
  • Capa comum ‏ : ‎ 352 páginas
  • ISBN-10 ‏ : ‎ 8535929096
  • ISBN-13 ‏ : ‎ 978-8535929096
  • Dimensões ‏ : ‎ 20.8 x 14 x 2.4 cm
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Autor

Lilia Moritz Schwarcz

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Sobre o Autor

equipe

Valdiomir Meira é licenciado em História e Letras, com pós-graduação em metodologia de ensino da língua portuguesa, metodologias inovadoras de educação e semiótica. Sua grande paixão é ler, viajar e ensinar. Leitor dedicado de quadrinhos e pesquisador nas áreas de educação e mitologia. Além de outras atuações profissionais, como criação de conteúdo para internet e tutoriais, também é redator e editor de artigos para blogs.

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